quarta-feira, 3 de julho de 2019

As Sete Vidas de Conímbriga



(Fotos dos meus arquivos)
A revista National Geographic deste mês oferece-nos uma bela reportagem sobre Conímbriga, com o título em epígrafe, comemorativa dos 120 anos depois da primeira escavação metódica daquelas ruínas que “desvendam segredos e desfazem mitos”. Tanto bastou para me lembrar de diversas visitas que fiz aquele espaço arqueológico com marcas indeléveis dos romanos. A reportagem é, para mim, muito importante porque, num grafismo bastante pedagógico, nos transporta ao tempo da ocupação romana, exibindo casario, ruas e gentes vestidas à moda daqueles tempos. Vê-se uma rua com os seus espaços comerciais, o povo que compra e vende, trajes garridos e na legenda sublinha-se que, “em 2018, foi inaugurado em Condeixa-a-Nova o Museu Portugal Romano em Sicó, que complementa a visita das ruínas com uma interpretação do mundo romano na fase do apogeu de Conímbriga”. 
Para além dos achados que entretanto foram catalogados e postos à disposição dos apaixonados por estes temas do nosso antepassado remoto, pretendo apenas evocar uma visita que fiz a Conímbriga, com a garantia de que, numa próxima oportunidade, lá voltarei. Quem corre por gosto não cansa. 

F.M.

Sobre a minha visita, pode ler aqui 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A nogueira do nosso quintal


Vezes sem conta já me acolhi à sombra desta nogueira que ano após ano nos garante nozes para uma época. Já tivemos outra que emparceirava com esta, mas tivemos de a cortar para a relva apanhar sol. Quando estou à sua sombra, sucedem-se histórias a ela ligadas, com décadas na minha memória. Dizem que as memórias muito antigas têm mais visibilidade na velhice das pessoas. É o caso. 
Lembro-me como se fosse hoje: as duas nogueira, de uns dois palmos cada uma, foram-me oferecidas pela candura de um menino que foi meu aluno. Nunca percebi porquê, mas o certo é que vi naquele gesto uma sinceridade e uma amizade tão grandes que nunca mais saíram da minha vida. O menino era, e julgo que ainda é, o Agra, da Marinha Velha. Nunca mais o vi, como a tantos outros. Ou se vi, não o reconheci. 
O Agra foi o mesmo menino que, num passeio escolar, foi acometido de uma grande dor de barriga,  em Oliveira de Azeméis, que me obrigou a regressar apressado, com ele,  de táxi, para ser internado no Hospital de Aveiro, onde foi operado a uma apendicite. 
Pelo seu gesto e pela história de sucesso da sua primeira intervenção cirúrgica, fico grato à nossa nogueira.
Aqui fica uma saudação especial para o Agra e para a sua família. 

Fernando Martins 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Três dos meus amores



Os filhos e netos perpetuam-nos no mundo. O nosso ADN vai passar, se Deus quiser, de geração em geração. Até ao fim dos tempos. Vem isto a propósito do nosso neto Dinis ter passado uns dias connosco. Os outros, a Filipa e o Ricardo, passam por cá quando podem, o que  é sempre uma alegria para os avós. E também para eles, afirmo-o sem ter dúvidas. 
Hoje, na hora da partida, ao apreciar os sacos e malas das roupas e outras coisas, veio o desafio de registar em fotografia a carga que uma pessoa, mesmo pequena, carrega para uns simples dias de férias.  E três dos meus amores sorriram perante os meus comentários. Eu, que sou do tempo em que nos governávamos com pouquíssima coisa, apenas o suficiente para a vida de há uns 70 anos, não posso deixar de evocar as alterações profundas que se têm verificado na sociedade ao longo das últimas gerações, a tantos níveis.  Houve progressos nunca sonhados na minha meninice e formas de viver e de pensar  que se impuseram como marcas civilizacionais que serão alicerces de mudanças em constante movimento. Penso que poucos terão grandes saudades dos tempos passados, para além dos mimos com que nos brindaram.
Nos sacos e sacolas, malas e maletas dos tempos atuais, não falta nada. Para uns dias, há roupa para as quatro estações, calçado variado, jogos e quebra-cabeças, cadernos e livros de estudo que nem são abertos, computador (Claro!) para imensos tempos livres. E na despedida, a avó até comentou: — nestas curtas férias, só foste regar uma vez; nem foste ao galinheiro buscar os ovos; nem construíste nada no quintal; na próxima visita, teremos de fazer um programa diferente. 
Depois da fotografia, lá foi o Dinis com a mãe Aida. Alegres como sempre. E a  casa ficou vazia. 

Fernando Martins

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A Gafanha da Nazaré precisa de um grupo de teatro




A Gafanha da Nazaré precisa, há muito, de um grupo de teatro com atividade regular. Eu sei que de quando em vez por aqui aparecem grupos que exibem, com alma e orgulho, o fruto do seu trabalho. Mas a cidade da Gafanha da Nazaré não pode apenas estar à espera dos outros, pondo de lado a arte de representar. Precisa, urgentemente, de um grupo de gente que dinamize o teatro, nas suas diversas expressões, porque artistas, disso estou certo, não faltarão. 
Hoje mostro um cartaz de uma peça de teatro (O MAR, de Miguel Torga) que foi apresentada em 1974, no salão paroquial. Recordo os artistas, os técnicos e a alma de todo este trabalho, que foi o Humberto Rocha. Não seria tempo de alguém assumir a ressurreição do teatro na Gafanha da Nazaré? 
Para que se não esqueçam todos os que participaram nesta peça de teatro, aqui ficam os seus nomes: 
Artistas: Eva Gonçalves, Fátima Ramos, Irene Ribau, Eduarda Fernandes, Fátima Gonçalves, Dinis Ramos, José Alberto, Carlos Margaça, Horácio Bola, Carlos Bola, Herlander Loureiro, Alberto Margaça e Silvério Marçal. 

Ensaiador, Augusto Fernandes; Encenador e Sonoplasta, Humberto Rocha; Luminotécnico, Eduardo Teixeira; e Contra-regra, Luís Miguel. 

Fernando Martins

Nota: Escrevi este apelo em junho de 2006 e tudo se mantém como estava... 

domingo, 5 de maio de 2019

A minha mãe Rosita Facica


Ninguém, por mais insensível que seja, pode ficar indiferente à sua mãe, presente no dia a dia de cada um, olhando os nossos passos, periclitantes no início da nossa existência, ou firmes e resolutos na vida ativa. À mãe devemos tudo: a vida, o falar, os primeiros passos inseguros, os cuidados ao longo da vida, o carinho e a ternura que nos tornam pessoas capazes de amar, a educação para a partilha solidária, a fé que nos ajudou a descobrir, enfim, tudo o que nos faz gente saudável de corpo e alma. E eu muito mais  devo à minha saudosa mãe, que o povo tratava por Rosita Facica. Rosita porque era de estatura mediana e Facica por descender de um ramo familiar cujos apelidos, Francisco da Rocha, se propagaram nas Gafanhas. De Francisco surgiu o Facica.
A minha mãe nasceu em 23 de fevereiro de 1910 e faleceu em 15 de maio de 1994. Doente bastantes anos, esteve lúcida até morrer, o que aconteceu durante o almoço no Hospital de Aveiro.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Lita num passeio na Ribeira da Aldeia


Em maré de recordações, muito de acordo com o passar dos anos, hoje avanço com a memória de alguns amigos da minha Lita, que vim a conhecer desde que a encontrei por artes que só Deus saberá. Motivos de convívio, razões de passeios e momentos de alegria surgiam frequentemente, deixando marcas indeléveis nas nossas vidas.
A Lita, ainda jovem e sempre jovial, lá está no moliceiro num dos canais da ria de Aveiro. Toda a gente se mostra feliz. Familiares e amigos, que, entretanto, nos deixaram, ficando os seus sorrisos e gestos de estima e amor nos nossos corações.
Em cima, a tia e madrinha Zulmira, o tio Fonseca; ao centro, a Isaura e a Esmeralda, a Lita e a amiga e vizinha Adelaide; depois, a tia Lurdes, a Letinha de Pardilhó, o vizinho Alberto Gomes (marido da Adelaide) e a tia Aidinha. O passeio aconteceu na Ribeira da Aldeia, Pardilhó, provavelmente há 60 anos.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril: Para não cair no esquecimento


Em 25 de Abril de 1974 alguns militares politicamente mais esclarecidos, os «Capitães de Abril» como ficaram na história, descontentes com a guerra colonial e com algumas leis que afetavam os oficiais de carreira, conspiraram e levaram a cabo uma revolta com o objetivo de instaurar um regime democrático em Portugal.
Vivíamos numa ditadura corporativa, voltados para África, na senda de um regime que se proclamava de «orgulhosamente sós», na defesa de um país que se afirmava multirracional, multicontinental, uno e independente.
O analfabetismo era muito. O atraso em relação à Europa era enorme. A guerra colonial, com tudo o que ela teve de mau, gerou descontentamento geral entre o povo, sempre o mais sofredor. A incapacidade de os nossos governantes se adaptarem às correntes do pensamento então dominantes, era notória. A aceitação da autodeterminação das nações africanas era impensável. Tudo isso levou ao Golpe de Estado, seguido de uma Revolução.
Os militares, que, eventualmente, apenas estariam interessados em acabar com a guerra e estabelecer a democracia entre nós, viram-se ultrapassados com o regresso de exilados políticos, nomeadamente, Mário Soares e Álvaro Cunhal, e com as festas do 1.º de Maio, pela primeira vez celebrado em liberdade em Portugal, com a expressão que lhe era devida.
Partidos políticos assumem a liderança do processo, de mãos dadas com os militares ou contra eles, e Portugal foi bandeira de uma revolução sem muito sangue.
O MFA declara, como essência dos seus projetos, Democratizar, Descolonizar e Desenvolver o País. A democratização, com altos e baixos no pós-revolução, foi criando raízes, ultrapassando ideias totalitárias de minorias irrealistas; a descolonização tem sido (mal) explicada pelos que a fizeram, sem conseguirem libertar-se das “raivas compreensíveis” de centenas de milhares de portugueses que se viram obrigados a fugir de populações em fúria e ávidas de liberdade, sem que nada tivesse sido feito em favor de quantos nas colónias respeitaram os indígenas, através dos séculos; e o desenvolvimento, que muitos não veem ou não querem ver, a vários níveis, ainda não teve a coragem de erradicar a pobreza de enormes faixas da população. E se é verdade que hoje se vive muito melhor do que antes do 25 de Abril, também temos de reconhecer que, em pleno século XXI e 45 anos depois de Abril, 20 por cento dos portugueses passam fome e estão privados do que é essencial e próprio de uma vida digna.
Com o 25 de Abril abre-se uma nova era na comunidade nacional. A liberdade voltou, os partidos políticos nascem como cogumelos, as colónias tornam-se independentes, as greves e os movimentos reivindicativos sucedem-se, as ideologias até então reprimidas voam por todos os cantos, a economia perde o norte, os golpes e contragolpes multiplicam-se e um ano depois reúne-se a Assembleia Constituinte, que nos dá a Constituição para um novo período da nossa história.
Novas mentalidades e maneiras de ver e de ser brotam com força, o ensino democratiza-se, a justiça social manifesta-se, a reintegração dos portugueses estabelecidos nas colónias e forçados a regressar a Portugal, de livre vontade ou fugidos, é um exemplo para muitos.
Com novas mentalidades, com a mulher a seguir, legitimamente, uma carreira profissional, as famílias viram-se forçadas a reestruturar os seus ambientes. Surgiram novas instituições para responder às necessidades das famílias e outras tiveram de se readaptar às circunstâncias.
A Escola e a vida aceitam a democracia e o país olha mais para a Europa. E na linha da frente, como noutras épocas históricas, a Igreja Católica ocupou o seu espaço na proclamação e na vivência das suas doutrinas e no apoio, sobretudo, aos que mais sofrem.
A Gafanha da Nazaré não ficou indiferente à revolução. A adesão foi bastante expressiva, tendo surgido na altura os diversos partidos nascidos com a democracia de Abril. Novas mentalidades valorizaram o espírito democrático e o povo tornou-se mais aberto e mais participativo. Novos horizontes se instalaram entre as populações aqui radicadas.

Fernando Martins

Do livro “Gafanha da Nazaré — 100 anos de vida” com ligeiras adaptações

Reflexos de vida de Fernando Martins

Páginas

Tema Espetacular, Lda.. Imagens de temas por Maliketh. Com tecnologia do Blogger.

DONO DO BLOGUE

DONO DO BLOGUE
Fernando Martins

Princípios da Gafanha - o Búzio

«Tão pobrezinha [a primeira capela] que estava desprovida de torre, ou simples campanário, e de sinos. Sem campanário, sem sinos… Como remed...