terça-feira, 6 de outubro de 2026

Rua Raul Brandão

Quando há anos topei com a Rua Raul Brandão, confesso que fiquei triste. É verdade. Porque o escritor merecia muito mais. Eu sei que a relação das ruas a baptizar tinha sido feita, na sua grande maioria, numa noite. De modo que, quer queiramos quer não, não havia hipótese de escolher a rua, conforme a personalidade a homenagear.
E Raul Brandão, provavelmente, na minha óptica, o que melhor cantou a nossa ria, com referência assinalável à Gafanha, merecia mais do que uma ruazinha sem expressão, sem circulação de veículos que levasse as pessoas a falar dele.
A Rua Raul Brandão parte da Rua Sacadura Cabral (e não Secadura Cabral, como se lê numa placa) e dirige-se para a ria, sem lá chegar.
Raul Brandão canta no seu livro Os Pescadores, de forma única, a Ria de Aveiro. Andou por aqui para a conhecer, no dia 21 de Julho, e dias seguintes, de 1922. Alguns dias, certamente, porque de outra forma não seria possível pintar um quadro tão rico.
“A ria é um enorme pólipo com os braços estendidos pelo interior desde Ovar até Mira. (…) De um lado o mar bate e levanta constantemente a duna, impedindo a água de escoar; do outro é o homem que junta a terra movediça e a regulariza. (…) Abre canais e valas, semeia o milho na ria. Povoa a terra alagadiça, e à custa de esforços persistentes, obriga a areia inútil a renovar constantemente a vida. Edifica sobre a água, conquistando-a, como na Gafanha, onde alastra pela ria.
“(…) Ninguém vem aqui que não fique seduzido, e noutro país esta região seria um lugar de vilegiatura privilegiado. É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta. É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos.
“É também sítio para os que querem descobrir novas terras à proa do seu barco e para os que amam a luz acima de todas as coisas. Eu por mim adoro-a. É-me mais necessária que o pão. E é talvez o ponto da nossa terra onde ela atinge a beleza suprema. Na ria o ar tem nervos. (…) A luz aqui estremece antes de pousar…”
Pelo que disse e pelo que ficou por dizer, digam lá, meus caros conterrâneos, se Raul Brandão merecia ou não uma rua à medida da grandeza do escritor que ele foi?

Fernando Martins


Nota: Reedição deste escrito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Colapso do Estado Social?

Padre Lino Maia alerta para risco
de colapso do Estado Social

O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) alertou para a insustentabilidade do Estado Social em Portugal, receando que o foco orçamental na Defesa desvie «o dinheiro das instituições». «Não queria ser catastrofista, mas temo, temo um bocado, até porque são definidas prioridades e sabemos, todos nós, que agora a Defesa é considerada como uma prioridade para chegar aos 5% do PIB», explicou o padre Lino Maia em entrevista à Ecclesia e Renascença, emitida ontem.
O responsável assumiu que a situação é «muito complicada», acrescentando que os sinais «não são muito positivos», por parte do Estado. «78% do que se faz em ação social em Portugal é feito por estas instituições que brotam da sociedade», ilustrou. O presidente da CNIS explicou que a inflação específica neste setor é «muito mais elevada. O Estado, ou desperta para um apoio mais significativo a estas instituições, ou então muito mais gente ficará abandonada, ficará para trás», alertou.


NOTA: Texto do Diário do Minho

Grandes Veleiros no Porto de Aveiro



A festa dos Grandes Veleiros não pode cair no poço do esquecimento. Ainda hoje a recordei com imensa saudade.
Fui um dos muitos visitantes, integrando o número elevado dos apaixonados por estes navios, cujas tripulações souberam, na parada em direção ao Jardim Oudinot, animar a festa, com os seus cânticos, músicas, tambores e muita alegria. 
De permeio, brincadeiras espontâneas participadas pelos marujos e oficiais, mas ainda por muitos jovens que fizeram o seu batismo de mar a bordo de alguns Veleiros.
Recordo-a com muita saudade. E se pudesse ser reeditada?


domingo, 4 de outubro de 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Bons Tempos

 
O Google sabe muito. De vez em quando, brinda-me com a oferta de fotos que me fazem recuar no tempo da minha vida ativa. Desta feita, aqui estou eu num congresso das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), em Fátima. Já lá vão uns anos.
À medida que o Congresso decorria, elaborava notas, fazia entrevistas e atendia jornalistas, esclarecendo nas suas dúvidas. Bons tempos!

sábado, 26 de setembro de 2026

A BORDA



Para os gafanhões, a borda era o local de acesso mais fácil à Ria. Com maré baixa, era certo e sabido que o povo se abastecia de berbigões (cricos, na gíria popular), amêijoas, lingueirão de canudo e de uns peixitos que por ali cirandavam aflitos e sem força para chegar aos regos de água salgada. O mexilhão e lapas arrancavam-se das pedras que defendiam os terrenos das marés vivas. Há décadas, o marisco era apanhado livremente, dia a dia, sempre ao sabor das marés. Apenas se respeitavam, em obediência ao saber de experiência feito, os meses sem erre. Nessas alturas, sem avisos das autoridades marítimas, o povo sabia que as diarreias eram perigosas.
A borda era um convite à proximidade franca com a laguna. Nadava-se, chapinhava-se nas lagoas que a maré cheia deixava para deleite da pequenada. A borda era espaço de encontro e de cavaqueiras das gentes da pesca e da apanha do moliço, chamado arrolado, porque era oferecido de mão beijada pelas águas quando fugiam para o mar.
A borda beneficiava todas as Gafanhas e matava a fome a imensa gente. Mas a borda de hoje, não era como dantes. As obras portuárias, cais, diques, navios, arruamentos, ferrovia e outras estruturas ligadas às pescas, como estaleiros, oficinas e espaços comerciais, fecharam a sete chaves a ria aos gafanhões. A laguna ficou para turistas que por ela navegam em épocas de lazer. Agora, apenas num ou noutro recanto, ainda vale a pena arregaçar as calças para apanhar marisco. A cerveja fresquinha espera.

FM