sábado, 26 de setembro de 2026

A BORDA



Para os gafanhões, a borda era o local de acesso mais fácil à Ria. Com maré baixa, era certo e sabido que o povo se abastecia de berbigões (cricos, na gíria popular), amêijoas, lingueirão de canudo e de uns peixitos que por ali cirandavam aflitos e sem força para chegar aos regos de água salgada. O mexilhão e lapas arrancavam-se das pedras que defendiam os terrenos das marés vivas. Há décadas, o marisco era apanhado livremente, dia a dia, sempre ao sabor das marés. Apenas se respeitavam, em obediência ao saber de experiência feito, os meses sem erre. Nessas alturas, sem avisos das autoridades marítimas, o povo sabia que as diarreias eram perigosas.
A borda era um convite à proximidade franca com a laguna. Nadava-se, chapinhava-se nas lagoas que a maré cheia deixava para deleite da pequenada. A borda era espaço de encontro e de cavaqueiras das gentes da pesca e da apanha do moliço, chamado arrolado, porque era oferecido de mão beijada pelas águas quando fugiam para o mar.
A borda beneficiava todas as Gafanhas e matava a fome a imensa gente. Mas a borda de hoje, não era como dantes. As obras portuárias, cais, diques, navios, arruamentos, ferrovia e outras estruturas ligadas às pescas, como estaleiros, oficinas e espaços comerciais, fecharam a sete chaves a ria aos gafanhões. A laguna ficou para turistas que por ela navegam em épocas de lazer. Agora, apenas num ou noutro recanto, ainda vale a pena arregaçar as calças para apanhar marisco. A cerveja fresquinha espera.

FM

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Apelidos e alcunhas da Gafanha

Recolha de António Augusto Afonso


Ó gafanhões da minha terra
De cá de longe, eu vos saúdo!...

Ó terra que eu amo, eu te saúdo.
Ó terra da boa gente!...
É o que diz quem o sabe,
E muito mais quem o sente.

Ó gafanhões da minha terra
De longe, vos venho saudar.
Com vossos apelidos e alcunhas
Mas a todos respeitar.

Com seus apelidos e alcunhas
Que já lhes vêm de seus avós,
Ninguém sabe donde lhes vieram,
E muito menos quem lhos pôs.

Alguns bastante engraçados
E até originais e bizarros
Tais como Cigarras ou Grilos
Salsas, Vinagres ou Cigarros

Bolas que não rolam nas Relvas,
Fidalgos sem fidalguias nem brasão
Reis, Condes e Marqueses
E até Frades sem gabão.

E que siga a Rusga e viva a Alegria
Com Guitarras e Violas, Fadistas e Cantadores
E Estanqueiros, Cordeiros e Parceiros,
E Carapelhos, Coelhos e… Caçadores.

Teixeiras, Casqueiras e Ferreiras
Camões, Camarões e Calções
Os Ribeiros, os Ribaus e os Maus
Esgueirões, Carranjões e Gafanhões.

Vergas, Peixotos e Calhotos
Caçoilos, Palhaços e Palhaças
Tavares, Tarrincas e Petingas
Mateiros, Mónicas e Margaças.

Páscoas, Dias e Santos
Rochas, Facicas e Barricas
Marques, Varetas e Maguetas
Piorros, Pônas, Laricas e Janicas.

Brancos, Louros e Russos,
Vechinas, Bichos e Bichões
Alhos, Labregos e Cagarutos
Pintos, Retintos e Cagões.

Patas, Penitates e Lourenços
Valentes, Vicentes e Ritos
Torres, Píncaros e Ramos
Cravos, Flores e Bonitos.

Alcatrazes, Maçaricos e Gaivotas
Melros, Piscos e Cucos
Roques, Rolas e Rolos
Raposas, Zanagos e Zucos.

Albuquerques, Alves e Almeidas
Catraios, Catarréus e Catarinos
Serrões, Guerras e Serras
Tomazes e Ferrazes, Cirinos e Marcelinos.

Sousas, Soares e Sardos
Guinchos, Gulaimos e Perselhas
Sarabandos, Estudantes e Galantes
Anastácios, Garcês e Garrelhas.

Carecas, Caleiros e Calistos
Barba Azul, Pinhos e Gandarinhos
Mateus, Matias, Matos e Ratos
Vidreiros, Vieiras e Vilarinhos.


Calores, Neves e Geadas
Covas, Calatrós e Serafins
Bisas, Brióis e Serapões
Martinhos, Martelos e Martins.

Caixotes, Loureiros e Monteiros
Marçalos, Arrais e Morais
E com Lopes, Lés e Cafés,
Serão ainda muitos mais.

E ainda Silvas e mais Silvas
Com Carvalhos, Nogueiras e Pereiras
Figueiras, Macieiras e Salgueiros,
E a grande floresta de Oliveiras.

Não é possível contar-vos a todos
Por ser elevado o número. Contudo…
Ó gafanhões da minha terra,
Com todo o respeito, daqui de longe, vos saúdo.

António Augusto Afonso

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Nossa Senhora dos Navegantes



“Nossa Senhora dos Navegantes é protetora dos que se fazem ao mar, mas também dos que ficam em terra com preocupações e angústias”, disse o P.e Pedro Oliveira, pároco da Gafanha da Nazaré, na eucaristia que decorreu na tarde de domingo, 20 de setembro, no largo da Capela do Forte da Barra, na Gafanha da Nazaré, após a procissão marítima que juntou dezenas de embarcações, transportando imagens religiosas, pároco, acólitos, Banda Filarmónica Gafanhense e muitos populares. 
A festa identitária da comunidade ligada ao mar incluiu um festival de folcore e concertos de música pop.

Nota: Texto transcrito do CV

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O OUTRO FILHO (IRMÃO DO PRÓDIGO)

Mais um poema de Ana Luísa Amaral



«O vitelo mais gordo»
disse o pai. Mas era para o outro
que falava

E ele interrogou-se confundido,
o coração pesado de negócios
esquecido de viagens e sonhos
por fazer

Deve ser coisa estranha
a lealdade,
como penoso o ofício
de amar

Perdida a juventude
entre contas e servos,
entre terras vedadas e cega obediência
que lhe restava

senão juntar-se à festa
e comer do vitelo
e fingir alegria
em pródigos sorrisos?



Nota: do livro ÁGORA

sábado, 5 de setembro de 2026

O arbusto


 Este arbusto que ocupa espaço que lhe permite viver tranquilamente, tem vida regalada. Não lhe falta rega nem terreno para crescer. Já pensei em mandar podá-lo, mas não posso meter foice em seara alheia. A proprietária, minha esposa, não autorizou. Sempre quero ver o que nos espera!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026