Memória de um Cortejo dos Reis



O Cortejo dos Reis, ano a ano repetido, leva-me a experimentar a proximidade com as pessoas, muitas delas envolvidas na vivência desta antiga e sempre renovada tradição. A festa do Cortejo dos Reis proporciona-me a oportunidade de voltar aos tempos em que eu, menino, com meu irmão, mais novo três anos, participámos no Cortejo dos Reis, de uma ponta à outra, cada um com a sua cana às costas. Na ponta da cana lá ia a prenda para o Menino Jesus. Não consigo recordar toda a pequena carga, mas dela fazia parte um chouriço, um pequeno bacalhau, umas laranjas e nem sei que mais. Mas também é verdade que os nossos frágeis ombros não suportariam muito mais. 
O meu pai levou-nos até Remelha, de bicicleta, como era hábito na altura, entregando-nos ao cuidado de pessoa sua conhecida. Ainda me lembro de ouvir a minha mãe dizer que estaríamos assim a pagar uma sua promessa, coisa que não compreendi. Mas se ela dizia que tínhamos de ir no Cortejo, não haveria razões para discordar.
Recordo-me, com que saudade, de que, mal o cortejo chegou à igreja, eu e o meu irmão corremos para casa com os presentes ao ombro. Estava terminada a promessa. Quando entrámos na cozinha, os meus pais ficaram admirados e logo nos questionaram:
— Então não entregaram os presentes ao Menino Jesus, como vos recomendámos? O meu pai sorria como só ele sabia sorrir… 
Respondemos com o silêncio.
A minha mãe, mulher prática, resolveu a situação.
— Vai lá, Armando, e paga os presentes.
E assim foi. Mas como entender que tínhamos de entregar os presentes à comissão organizadora, se não conhecíamos ninguém? 
Afinal, as tradições são sempre excelentes motivos para reconstruirmos as nossas histórias de vida, por mais humildes que sejam.

Fernando Martins

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