quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Conversas ao sabor da maré




A vida é um dom permanente, que nem sempre sabemos apreciar e valorizar. Raramente nos apercebemos disso, mas é dom por tudo quanto dela nos vem. 
Ausente uns dias, não muito longe, que viagens cansam, o regresso foi rápido, quase ao cair da noite. A habitual sensação do retorno ao sítio em que criei  raízes profundas e duradouras.
Manhã cedo, que os dias são mais curtos, o erguer foi imposto por visitas programadas. Aqui, nas ruas que me são familiares, encontrei em cada esquina uma voz próxima, uma saudação amiga. E ouvi histórias, e soube de gestos já natalinos, e compreendi projetos solidários, e cruzei-me com amigos de longa data.
A nossa terra é sempre a terra que nos realiza como pessoas de partilha de sentimentos e emoções, de trabalhos e canseiras, de lutas benfazejas, de alegrias mais sonoras, de gestos mais emotivos.
Com a passagem dos anos, fixo mais os rostos e sorrisos das pessoas do que os seus nomes. Por vezes é a voz que torna presente os nomes, normalmente acompanhados de histórias de vida comuns. E então, é por aí que revivo acontecimentos de décadas, quantas vezes de ações solidárias em prol da comunidade e de pessoas.
Embora mais dado ao aconchego da minha casa e nela aos meus recantos de leitura, escrita e música, prazeres que me enchem a alma e me inspiram a alegria de viver, começo, quiçá tardiamente, a valorizar os encontros ocasionais nas ruas da nossa terra. Vou tentar sair mais, na esperança de me enriquecer com as conversas ao sabor da maré.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Bom Dia de S. Martinho

Castanhas e jeropiga para 



Como manda a tradição, celebra-se hoje, 11 de novembro,  o Dia de S. Martinho. Se a nossa região fosse terra de vinhos, teríamos de provar o vinho novo com as castanhas. Assim, limitar-nos-emos a beber um vinho qualquer, ao gosto de cada um, ou a também tradicional jeropiga. Vou pelo que estiver à mão.
Que me lembre, as castanhas numa foram a base da alimentação das nossas gentes, o que acontece mais nas terras de muitas e boas castanhas. Neste caso, é sabido que as castanhas serviam para confecionar boas e substanciais sopas, alguns doces e até para acompanhar carne assada. Garanto que as castanhas são um excelente complemento. Um dia destes fizemos a experiência de substituir as batatas pelas castanhas na carne assada no forno. 
Por cá, pelas nossas terras, opta-se pelas castanhas assadas. Antigamente em caçarolas de barro, com buracos, e temperadas com sal grosso. Eram saborosas, sim senhor. Mas nada que se compare às que comprávamos nas pontes, o olho da cidade, em Aveiro. Vinham embrulhadas em papel de jornal e em folhas das listas telefónicas já retiradas de uso. Sabiam muito bem. Uma dúzia de apetitosas castanhas, de casca esbranquiçada, pelo fogo e talvez pelo sal, descontando umas tantas pobres que vinham sempre na rede das mãos dos vendedores, eram delícias que nos enriqueciam o paladar, para além de nos aquecerem um pouco o corpo e a alma.
Agora, são, normalmente, assadas num qualquer fogão a gás ou elétrico, mas que não é a mesma coisa, lá isso não é. Garanto-vos. Nem as cozidas me sabem tão bem como as assadas. Gostos temperados noutros tempos, por certo.
Bom dia de S. Martinho para todos.

F,M,

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Passagem pela Livraria Lello



Durante a minha vida, passei diversas vezes pela célebre livraria Lello, que ostenta a fama de pertencer a um grupo restrito das mais belas do mundo. De facto, ali tão perto da também célebre Torre dos Clérigos, tudo faria crer que eu a tivesse visitado, mas assim não aconteceu, por razões que desconheço, já que sou um frequentador assíduo de livrarias. A fachada é notoriamente diferente das que a ladeiam, dando por isso nas vistas. A verdade é que lá fui pela primeira vez, faz hoje cinco anos, aquando da minha visita ao Porto. A sua beleza e fama estão na arquitetura do seu interior, realmente histórica e digna de ser vista. Não há quem lhe fique indiferente e julgo que é por isso que há sempre quem entre e aprecie com gosto. Aconteceu comigo. Fotografei de um lado e de outro, subi para desfrutar a livraria Lello por todos os cantos. E até desci à cave onde há umas tantas edições, próprias, de bolso, provavelmente únicas, no género.
Cá estão visitantes de máquina em punho, fazendo o que eu havia feito, depois de outros me convidarem, pelo seu exemplo, a fotografar. Pelo que vi, o interior é chamariz para muitos turistas. Portugueses e estrangeiros, havia no rosto de muitos um certo ar de espanto. Depois lá olhavam para os livros.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Homenagem: Irmã Maria Rosa



Partamos 

Partamos!...
a sorrir… de mãos dadas…
olhos presos no azul do Infinito…
embriagando-nos de luz…
— da luz pura e renovadora da Verdade —
galgando «encostas»…
escalando «rochedos»…
conquistando, enfim, as cristas nevadas!...

Ferimos as mãos?...
Tingimos de sangue as pedras dos caminhos?...
Sentimos vertigens à borda de abismos?...
Que importa?

Todo o esforço é uma conquista…
a vida é uma conquista…
que nos deixará na alma, no coração,
em todo o nosso ser, uma alegria justa e imensa…
— a alegria indizível de vencer!...

Subamos!...
É preciso subir para viver…
Subir para ver mais longe…
Subir para compreender os nossos irmãos…
Subir para abraçar a Humanidade inteira…

Partamos, então, a sorrir, de mãos dadas…
Calcorreando caminhos e estradas...
cobertas de pó e de suor…
mas a cantar… a cantar…
irradiando à nossa volta
ALEGRIA
AMOR…

Irmã Maria Rosa

In Timoneiro, Fevereiro de 1984


NOTA: Presto hoje uma singela homenagem a uma pessoa que conheci na década de oitenta do século passado. Chamava-se Maria Rosa e era uma consagrada das Religiosas do Amor de Deus. Tirou o curso de Educadora de Infância já madura. E trabalhou, como coordenadora do jardim e Creche da Obra da Providência, durante algum tempo. Pessoa exigente, responsável e com capacidade de iniciativa. Frontal sem esconder o lado espiritual da vida. 
Há dias encontrei uns poemas seus no Timoneiro e tanto bastou para a lembrar com alguma emoção. Em momentos especiais não se esqueceu de mim. Regressou lá para os lados de Lisboa, onde continuou a trabalhar. Anos depois reconheci-a num concurso da Televisão, para conseguir fundos para uma acção que estava a desenvolver. Ganhou uma verba, que não consigo precisar, e ficou feliz. Soube, mais tarde, que tinha falecido.
Recordo-a com saudade.

FM

Caramulo e os seus encantos

Das minhas memórias O mês de agosto de 2014 foi muito rico a nível de férias. Eu e a Lita fomos uma semana para o Caram...