13 de maio pela rádio em casa do senhor João Catraio



Teria os meus seis anos quando vi e ouvi, pela primeira vez, um rádio. Na altura chamavam-lhe telefonia. Foi na casa do tio João Catraio. Num dia 13 de Maio, para ouvir as cerimónias de Fátima.
Mulheres e filhos sentados no chão, numa sala onde a telefonia era rainha, ali se ouvia o que decorria no Santuário de Fátima, com a missa celebrada em latim. Um padre fazia os comentários e um locutor, como então se dizia, dava explicações do que estava a acontecer. O tio João, sentado ao lado do rádio, de quando em vez acertava a sintonia. Pelos vistos, as ondas sonoras desviavam-se do aparelho e era preciso estar atento, para não se perder pitada do que lá longe se celebrava. 
Na sala, ao lado das pessoas sentadas no chão, estavam a mulher Carolina e as filhas, Maria e Clementina (gémeas), estas mais atentas ao que se passava e à espera de quem viesse para ouvir a transmissão daquele santuário.


Tenho presente o silêncio religioso que havia na sala. Mulheres de xaile preto e de lenço na cabeça rezavam com devoção, respondendo ao celebrante com o latim macarrónico que se havia decorado desde a infância. Ao Dominum Vobiscum respondia-se Et Cum Espírito Tuo. O Amem foi a primeira palavra em latim que decorei. Muitas outras ao longo da vida papagueei, sem conhecer o seu verdadeiro significado. Depois vinha a homilia, com o tio João a repetir as admoestações do pregador, para que ninguém perdesse palavra do que chegava de Fátima. 
Mais comovente era a bênção dos doentes. Nesse momento, mulheres choravam e também eu me comovia, com os apelos lançados, via rádio, ao Deus Todo-poderoso, para que curasse os doentinhos, que ali tinham ido à procura de um milagre para os seus males físicos. Dessa vez, como doutras, nunca ouvi a proclamação de quaisquer milagres. Mas acredito que tenham acontecido. A fé move montanhas.
Tantos anos depois destes acontecimentos, reconheço que estas idas à casa do tio João para ouvir as cerimónias de Fátima me marcaram sobremaneira. Que me lembre, isto não acontecia todos os meses. Mais em Maio, como mês mágico e de muita devoção mariana nas Gafanhas.

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