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A mostrar mensagens de Junho, 2014

O REGRESSO DO IRMÃO PRÓDIGO

Nas vésperas da noite de consoada falta sempre qualquer coisa mais ou menos importante para a festa da família, associada, há muito, ao nascimento de Jesus. Prendas, sobretudo. Porque não se contava com a visita de um familiar, porque as destinadas ao filho mais velho ou mais novo não se coadunavam, afinal, com os seus desejos ditos em jeito de brincadeira, porque a filha precisava de algo diferente para decorar a sala. Não cultivo muito o gosto de fazer compras, exceto de livros, mas acompanhei uma familiar pelas lojas mais na moda ou mais agressivas na publicidade aos seus produtos. Essa minha pouca apetência pelas compras não foi fruto de uma qualquer catequese mal alinhavada, que leva à conta de puro consumismo tudo o que diz respeito a dar lembranças em datas marcantes das nossas vidas, mas, sim, a uma inexplicável falta de habilidade. As prendas, no fundo, e em especial as de Natal e Páscoa, são normalmente sinais dos nossos afetos e do nosso amor para quantos nos rodeiam. Por …

MARIA DO CÉU

Com os anos a pesarem, a varredora arrasta-se no seu labor mecanizado na busca das folhas caídas do arvoredo. Empregada da empresa encarregada do asseio citadino, vejo-a com frequência da esplanada do bar onde matinalmente costumo saborear o café de mistura com o ar puro que o parque me oferece. A mulher deambula de um lado para o outro indiferente aos olhares de quem está ou passa. Baixa-se com dificuldade, puxa com as poucas forças que lhe restam o saco preto de plástico semicheio de lixo, ergue-o a custo para o despejar no carro de mão e volta à cata de mais folhas, mas também de papéis atirados para o chão por gente graúda e miúda que corre apressada, sem cuidar de saber das recomendações que periodicamente se badalam para haver respeito pela limpeza do ambiente, que é casa de todos. De quando em vez, o capataz lá aparece para dar as suas ordens: — Olhe ali; quero isto limpinho como um brinco; não quero queixas de quem paga! Maria do Céu, assim se chama a mulher que me prende a a…

O PITEIRA

Toda a gente da aldeia conhecia o Piteira. Era uma figura típica que não passava despercebida a ninguém. Não que fosse um artista, um pai de família exemplar, um proprietário de nome conhecido na praça, um político de palavra fácil. Nada disso. Era simplesmente um “alma de Deus” e um ébrio incorrigível. Magro, pele tisnada pelo sol e pelos ventos salgados da maresia, beata ao canto dos lábios, sempre do lado esquerdo, boné à marinheiro, olhos bem abertos para o infinito, nunca olhava de frente fosse quem fosse, falava sem tino a maior parte do dia e até de noite. Pregava sermões não se sabe a quem, de vez em quando, mas não se conheciam animosidade de sua parte. Bebia tinto, sempre tinto, que outras bebidas o seu estômago não aceitava. Faziam-lhe azia, dizia a quem procurava saber o porquê dessa discriminação. Só o tinto, pois, e a qualquer hora, fazia dele um bêbado famoso nas redondezas. Mas era um bêbado cordato. Não se notavam nele tendências agressivas, não armava zaragatas e at…

O MEU SÓTÃO

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Um sótão que se preze é sempre uma preciosa inspiração de estórias. O meu não foge à regra. Não tem sido meu hábito subir, o que não acontece com a minha Lita, que tem lá a morar as nossas gatas, mãe e filha, a Bijú e a Guti, que trata como se pessoas da família fossem. Alimentação sadia e adequada, higiene diária e companhia exigida por elas. Se a Lita demora, elas encarregam-se de a avisar. No sótão há de tudo: Livros e revistas considerados pouco necessários, cassetes e CD ultrapassados pelas novas tecnologias, os ninhos das gatas para diversos gostos e temperaturas, um rádio com uns 60 anos, uma TV à espera de quem a considere um mono sem qualquer préstimo, cadeiras, sofá, um lavatório da avó da Lita, uma máquina de costura antiga de fazer ponto ajour, fotografias de filhos meninos e adolescentes, entre mais umas coisas, que não conseguimos despachar para o lixo, um emblema do Sporting, alto-relevo, que resiste a umas seis décadas, oferecido por um amigo que hoje me trouxe grata…

A BEATA

Um sol radioso entra pela janela do meu quarto em dia de folga. Dias antes, em pleno outono, um frio cortante reclamava agasalhos da estação fria. Era então altura de saborear a benesse da natureza. Sair de casa, caminhar sem destino pelas ruas, olhar a vida sem pressas, mirar gente que corre para cumprir horários, deixar voar a imaginação.  Caminhar não é só um ritual pedido por um coração que se quer saudável. É sentir o gosto pela vida, beber o ar fresco que dilata pulmões, ver pessoas que se cruzam caladas ou com acenos de simpatia, apreciar a árvore presa à terra que lhe dá o viço e a atira para o alto. É olhar com ternura a criança que treina os primeiros passos na relva do jardim, com a mãe embevecida a ampará-la com o carinho que só ela pode dar.  Caminhar é ainda encontrarmo-nos a nós próprios em maré de reflexão, é rezar no meio da agitação, do barulho ensurdecedor de carros que circulam com gente agitada. É querer um mundo mais são, mais terno, mais justo, mais fraterno. É…

A CAMA NOVA

Numa tarde quente, quase no final do ano letivo, o Zé Carlos convidou-me para ir até sua casa. As aulas tinham terminado há pouco, com o professor algo perturbado, contra o que era costume, pela falta de dedicação ao estudo da malta da quarta classe. Falta de estudo não seria assim tanto, mas a verdade é que as respostas certas às perguntas do mestre sobre Geografia de Portugal não saíam, naquele dia, como ele decerto gostaria. A exigência de saber de cor as linhas férreas e de conhecer, de forma papagueada, os rios do continente, das ilhas e colónias, entre outros saberes alusivos aos territórios pátrios, que na altura se estendiam pelos quatro cantos do mundo, como apregoavam os políticos, deixava os alunos um pouco baralhados. Por vezes, ficavam bloqueados, com a boca incapaz de dizer coisa com coisa. O cérebro como que adormecia, talvez cansado, quando o professor ficava zangado. Na sua ótica, havia alunos que não estudavam o suficiente, de forma a fazerem boa figura nos exames f…

O AMÉRICO

De sorriso largo a emoldurar-lhe o rosto gasto pelos anos e cansado de tanto trabalho e canseiras, de chapéu a bailar-lhe nas mãos calejadas pela luta do dia-a-dia, de gravata garrida sobre a camisa branca, de sapatos polidos e fato completo, vinha desejar-me bom Natal, tantos anos depois de nos termos conhecido. Os anos passam, mas as amizades, nem sempre manifestadas por tantos motivos, perduram. Era o caso. O Américo tinha saudades de alguns momentos vividos e sentidos em comum. Vinha da estranja, para onde fora em hora de mudar de vida. Era a terceira tentativa, depois de ter desistido da mina que lhe roubou a saúde e nunca lhe matou a fome.  Quando o conheci, tinha trinta e poucos anos, filhos seguidinhos, pele enrugada e olhos encovados pela escuridão do poço, parecia na casa dos cinquenta.  — Tenho cara disso, mas estou muito longe. E olhe, também é por causa disso que quero fugir da mina.  Trabalhava horas a fio, em condições sub-humanas, com o pó negro do carvão a corroer-lh…

13 DE MAIO PELA RÁDIO

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Teria os meus seis anos quando vi e ouvi, pela primeira vez, um rádio. Na altura chamavam-lhe telefonia. Foi na casa do tio João Catraio. Num dia 13 de Maio, para ouvir as cerimónias de Fátima. Mulheres e filhos sentados no chão, numa sala onde a telefonia era rainha, ali se ouvia o que decorria no Santuário de Fátima, com a missa celebrada em latim. Um padre fazia os comentários e um locutor, como então se dizia, dava explicações do que estava a acontecer. O tio João, sentado ao lado do rádio, de quando em vez acertava a sintonia. Pelos vistos, as ondas sonoras desviavam-se do aparelho e era preciso estar atento, para não se perder pitada do que lá longe se celebrava.  Na sala, ao lado das pessoas sentadas no chão, estavam a mulher Carolina e as filhas, Maria e Clementina (gémeas), estas mais atentas ao que se passava e à espera de quem viesse para ouvir a transmissão daquele santuário.

PIQUENIQUES DOUTROS TEMPOS

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Sem muito sol e com aragem a propor abrigo, não faltaram no parque que habitualmente atravesso famílias em piqueniques. O aconchego do arvoredo e as mantas estendidas convidaram quem estava, e muitos eram, a saborear os farnéis que de longe vislumbrei. E pela forma como eram degustados, sem pressas e sem complexos, posso garantir que estavam apetitosos. Depois, seguiu-se a soneca dos mais pesados e a bola dos mais miúdos. Tanto bastou para eu recuar uns bons 40 e tal anos, quando, com a família, bem unida e concordante, fazia o mesmo, quer na mata da Torreira e S. Jacinto, quer entre a Costa Nova e a Vagueira. Não era pela poupança, embora não fosse despiciendo pôr de lado essa vertente. Bons tempos. Preparado o farnel, à medida das idades e dos apetites, preparada a trouxa do indispensável, que as comodidades exigiam, tudo arrumado no carro, sem espaço para mais nada, lá seguíamos à procura do lugar ideal, onde não incomodássemos nem fôssemos incomodados, que de vizinhos desconhecid…