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A mostrar mensagens de Maio, 2014

AINDA A MINHA RUA ALMEIDA GARRETT

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«Muito haveria para escrever... fiquei a pensar na quantidade de memórias que uma rua consegue conter... Se todos os que aí vivem e viveram fossem acrescentando uma pequenina frase... Eu lembrei-me logo que era a rua onde viviam os meus bisavós, com o seu quintal a preencher grande parte da rua...Por aí passei diariamente, durante os anos da escola primária, para aproveitar a boleia do Senhor Professor Fernando...Num bonito carro, um carocha!!! Se estava a chover, a água na vala corria como um rio... e logo apareciam os girinos, que se apanhavam para meter em frascos... A chuva também fazia grandes charcos, no saibro, uma delícia para saltar lá para dentro com botas de borracha...  Parabéns por mais um bonito texto!!!!!»
Cláudia
Em “Comentários”
NOTA: O texto que escrevi neste meu blogue de memórias e estórias sobre a minha rua mereceu da Cláudia um comentário que aqui transcrevo e que retirei do sítio certo, em “comentários”. De facto, é como ela diz, quando sublinha que ficou «a pe…

RUA ALMEIDA GARRETT

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Moro na Rua Almeida Garrett. Já foi ou ainda é travessa Almeida Garrett. Também foi Almeida Garret e Almeida Garrett ao mesmo tempo. Com erro, só com um “t”. De qualquer modo, e apesar do erro que engana quem nunca ouviu falar ou escreveu corretamente o nome de um grande vulto das nossas letras, gosto dela, porque a vi nascer. É uma rua direita e tranquila. Todos os vizinhos são amigos e gente muito boa. Quando eu era menino, era um caminho de areia por onde circulavam os carros de vacas carregados de esterco ou de moliço a caminho das terras de cultura. No regresso vinham com erva, milho, feijões e batatas. As alfaias agrícolas ocupavam o seu espaço. E ainda havia lugar sentado para quem ia ou vinha dos campos. O gado estava tão treinado que até conhecia, sem qualquer indicação do condutor, os caminhos das terras e de casa.

A TITA

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Estar no quintal, em dias de sol ou chuva, é um dos prazeres que cultivo, como quem cultiva uma flor para desabrochar na primavera. Olhar as árvores na hibernação, ver as plantas que nascem sem que alguém as tenha semeado, cheirar o verde ora viçoso ora mortiço da vegetação espontânea, experimentar o prazer de deitar a semente à terra e de ver as novidades, mais tarde, ferirem a crosta areenta e estrumada, tudo isto me encanta.
Numa dessas tardes em que a contemplação me deixava voar ao sabor da maré que os ventos envolviam, a Tita surgiu apressada, como quem deseja chegar o mais depressa possível à meta que o seu instinto alimenta desde que nasceu. Passa por mim ostentando uma alegria esfusiante e corre, corre, sem aparente explicação. Depois cheira tudo, em busca não sei de quê. Dou comigo a pensar que isso já nasceu com ela. Chama o companheiro Totti, grita mesmo por ele, em jeito de quem quer alguém com quem possa partilhar a alegria de uma liberdade conquistada. Totti dá-lhe o g…

UM PARTO NO MEU AUTOMÓVEL

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Era certo que muitas raparigas entravam grávidas na Obra da Providência, algumas sem saberem, com rigor, o tempo de gravidez. Num princípio de tarde, uma jovem acolhida na casa alerta para a hora do parto. As dores começam a sentir-se e a angústia, natural, manifesta-se. Era necessário conduzi-la ao hospital da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, como era habitual em casos semelhantes. Logo a seguir ao almoço, bateram à minha porta duas raparigas apoiadas pela Obra, com o apelo urgente de as ajudar, já que um parto estaria iminente. Apressei-me, naturalmente. A futura mãe entra no meu automóvel, com sinais evidentes de que a hora se aproximava. Deitada no banco de trás, começou a queixar-se. Sentada ao  meu lado,  Dona Maria da Luz Rocha, fundadora e diretora da instituição,  começou a animá-la, dizendo-lhe que faltava pouco para chegar ao hospital.


O MEU AMIGO JERÓNIMO

Vi hoje o Jerónimo. Já não o via há muito. Estava à mesa do café a dormitar, como dormitam todos os velhos. Em qualquer sítio e a qualquer hora. Cá para mim, o Jerónimo estava a ensaiar mais uma das suas muitas estórias, para contar a quem se sentasse com ele à mesa do café. O Jerónimo é um conversador nato. Basta uma palavra dita por um amigo, em qualquer circunstância, para logo ele disparar: — Não te esqueças do que estás para dizer… A partir daí, começava mais uma estória de um rol enorme de recordações que não tinham fim. Mas as estórias até lhe  saíam com graça. Uns esgares faciais, expressivos, e mãos que enriqueciam os pormenores davam-lhe uma dimensão única. Por vezes, os ouvintes, que outra coisa não podiam ser junto dele, ainda suportavam umas palmadinhas, mais ou menos pesadas, conforme a força das convicções do orador por vocação.


PROPÓSITO

As minhas memórias vão surgir neste blogue ao sabor da maré, ao jeito de partilha com os meus leitores e amigos. Estórias, contos, vivências, experiências, acontecimentos, datas, pessoas, alegrias e,  porventura, algumas tristezas.